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Quanto vale o movimento associativo?

  • Foto do escritor: João Bastos
    João Bastos
  • 19 de set. de 2023
  • 4 min de leitura

A questão do título é iminentemente retórica, que pertence ao domínio do inefável, mas que, amiúde, se vai tentando quantificar qualificando com exemplos concretos dos ganhos que os associados obtêm através das ações das suas associações.


Mas no caso concreto da suinicultura nos últimos dois anos a questão até pode ser respondida no plano do concreto.


Em fevereiro de 2022, com uma situação de crise a agravar-se há quase 5 meses, a FPAS tomou a iniciativa de promover um plenário de suinicultores em Leiria, ao qual se seguiu um plenário da fileira da carne de porco. Deste encontro resultou um conjunto de propostas e reivindicações endereçadas ao ministério da agricultura e alimentação que tiveram como resposta imediata a criação de um grupo de trabalho coordenado pelo GPP que traçasse um diagnóstico estrutural e conjuntural da suinicultura portuguesa, orientando o ministério na tomada de decisão de apoio ao setor.


Foi este o primeiro passo para ser acionada a reserva de crise disponibilizada pela Comissão Europeia para situações excecionais, nessa circunstância justificada pela guerra na Ucrânia e a dificuldade no abastecimento de matérias primas.


Foram assim distribuídos 5,5 milhões de euros ao setor em setembro do ano passado na forma inédita de um apoio direto calculado com base no efetivo.


A FPAS continuou a trabalhar com o GPP no sentido de prever um apoio na nova PAC que, simultaneamente, apoiasse a renovação geracional do setor, tornasse a atividade atrativa e competitiva e impulsionasse a transição do setor para o modelo produtivo plasmado em estratégias como o Farm to Fork da Comissão Europeia ou os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.


Foi dessa forma que, pela primeira vez, a suinicultura foi contemplada na arquitetura do primeiro pilar da PAC, prevendo uma ajuda direta aos produtores que se certifiquem no âmbito do bem-estar animal e que reduzam a utilização de agentes antimicrobianos. Por atacado, estas duas medidas subsidiarão o setor em 42€ por cabeça normal, ou seja, 63€ por reprodutora em ciclo fechado.


Com o pedido único a ser prorrogado até ao final de julho prevê-se que mais 7 milhões de euros anuais, durante os próximos 7 anos, sejam entregues aos produtores. Referia-se que esta medida inserida no quadro dos ecoregimes apenas está implementada em dois países da União Europeia: Portugal e Lituânia.


Ainda antes disso, voltou a ser acionado o mecanismo da reserva de crise no passado mês de junho, desta feita para minimizar os impactos da seca, que consignou ao setor mais 8 milhões de euros.


Contas feitas, foram 20,5 milhões de euros a que a suinicultura portuguesa teve acesso no último ano aos quais se somarão 42 milhões de euros nos próximos 6 anos por via dos apoios dos ecoregimes, o que, sendo pouco, são 62,5 milhões a mais do que alguma vez a suinicultura tinha conseguido para alavancar a sua atividade.


A isto muito se deve o trabalho dos dirigentes associativos junto da tutela que, não se ficando pela esfera da reivindicação, souberam demonstrar ao poder político a mais valia de apostar num setor que a pandemia veio revelar estratégico para a prossecução da estratégia da autonomia alimentar do país.


Mas não é “apenas” pela qualidade dos dirigentes que se mede o alcance de uma organização. Não é, de resto, o principal fator que faz com que uma associação veja atendidas as suas solicitações. É na participação dos seus associados que reside o verdadeiro poder das associações. Foi esse poder que a FPAS adquiriu nos plenários de 08 de fevereiro e de 02 de março do ano passado e é esse poder que reside na adesão em massa à certificação de bem-estar animal que conta já com cerca de 550 marcas de exploração aderentes representando um universo de cerca de 112 mil porcas.


Como é natural em qualquer meio socioprofissional, nem todos os agentes confiam na capacidade do movimento associativo para resolver os seus problemas, mas em grande medida ignoram que apartarem-se desse movimento incorrem num processo contraproducente porque quanto mais enfraquecida for a organização, menor será a sua capacidade de resposta aos constrangimentos que afetam o setor.


É nesse sentido que importa sensibilizar à participação ativa de todos para fortalecer as suas organizações, desde as associações de base até à federação.


Também o assunto que trata esta edição especial da Revista Suinicultura dedicada ao Porco D’Ouro entronca com essa sensibilização à participação. A Gala de Entrega dos Prémios Porco D’Ouro é um projeto que vai muito além dos prémios que são entregues no evento, é, essencialmente, uma demonstração da excelência, da competitividade, da inovação e do investimento que as empresas têm feito ao longo dos anos e, sobretudo, o esforço e dedicação das equipas de trabalho das explorações. É uma demonstração de força para a tutela, para a administração pública e para os parceiros que todos os anos nos acompanham na noite de entrega dos troféus.


Mas para essa força ser efetiva é necessária uma maior participação, que vai desde as sugestões de melhoria do evento à participação efetiva no concurso.


A FPAS conhece e reconhece as debilidades do sistema BDporc Portugal e está a trabalhar na sua melhoria juntamente com o IRTA e, internamente, está também a desenvolver esforços para atrair mais empresas ao evento. Desde logo com a introdução este ano dos prémios para o bem-estar animal e para as raças autóctones e, no futuro, com o prémio à biossegurança.


Mas queremos ir mais longe e só lá chegaremos se formos com cada vez mais produtores.

É nesse sentido que em futuras sessões de esclarecimento comunicaremos as alterações que operaremos no modelo de entrega dos prémios e procuraremos trazer mais produtores para aquela que se pretende que seja a festa de todo o setor, o evento que nos dignifica e nos envaidece. E todos merecemos partilhar dessa vaidade pela excelência que o nosso setor produz.


Assim, fica o apelo. Para irmos depressa vamos sozinhos, mas para irmos longe temos de ir juntos!


*Texto originalmente publicado na Revista Suinicultura

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